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Tempos fascistas estes que vivemos; pode-se dizer o que bem quiser desde que prevaleça o senso-comum; ideias podem divergir da maioria, desde que tal divergência conflua para a convergência; pode-se protestar, reivindicar, denunciar, desde que estas tais excrescências contribuam para o silêncio sagrado, a paz social e o sono tranquilo da vizinhança; pode-se perfeitamente ser preso por falar a verdade, apontar o erro, indicar os equívocos, os preconceitos, as dessemelhanças; insistir na mentira pode ser vantajoso, mas permanecer calado significa ganho financeiro, propinas, cachês; o que chamam de impunidade é, na verdade, uma arca cheia de dinheiro, produto de enxágües nas máquinas de lavagem do capitalismo espúrio, das gangues de burocratas, fisiocratas e demagogos; neste festim diabólico encontrar-se-á toda a espécie de bandido, de aviõezinhos a senadores, de traficantes a empresários multimilionários; sinto muito cara-pálida: estamos falidos eticamente, moralmente, laconicamente; ou vão me dizer que prender meia dúzia de estudantes aloprados e enquadrá-los nos rigores da lei significa um exercício da democracia? Quem o disse e quem acredita em quem o disse merece diploma de louco, de estúpido, no mínimo. Isto, o ocorrido, é o saneamento básico: limpar, varrer, espanar, colocar a poeira debaixo do tapete; sinto muito cara-pálida: o buraco é mais embaixo, a ferida é enorme e a doença é maligna, mortal. Depois que a cortina de fumaça for dissipada pelo tempo, senhor da verdade, resultará inútil tanta violência, tanta intolerância de parte a parte, tanta força, tanta hipocrisia. Alguém sussurra longe: amor constrói; não enquanto existir gente odiosa odiando para merecer o nosso não-amor. Presta atenção, cara-pálida!
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Sabe estas chapas elétricas, estas de tostar pão? Pois então… Você corta uma fatia de queijo canastra meia-cura bem caprichada, grossa, teúda… Coloca a tal fatia generosa na chapa e espera, sem pressa, sem aflição; neste meio tempo, parte-se o pão em dois, esperando o queijo, que está ali, na chapa, conversando como você: “oi, tudo bem?”; sim, queijo canastra conversa (“me come, me come, canastrão”). Daí, depois de derretido, você tira o queijo da chapa e coloca no meio do pão… mas, observe: ficou uma rapinha o queijo na chapa, quase queimada, crocante, quase sexual… O que fazer?… raspe esta rapa peremptoriamente e coloque em cima do queijo canastra derretido dentro do pão; veja o que temos: um pão partido no meio, com queijo derretido e com a rapinha crocante no respectivo pão… O que você está esperando, lerdeza? Feche o pão (se você foi inteligente, colocou o café bem quente com rapadura na caneca, de preferência esmaltada, grande). Coma, o queijo com pão (eu disse QUEIJO com pão!), debaixo da mesa ou de alguma escada ou atrás de alguma porta. Mineiro é isso, um estado de espírito. Danem-se as gorduras polisaturadas!
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Estamos precisando urgentemente (além de lixeiras para dizer “obrigado, cidadão bacana e educado, safadão…” – para um dia feliz e auspicioso) de pessoas inteligentes, que poucas há nestas plagas cobertas pelas névoas do eterno inverno-alterosa…
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“Imagine só: sem sair do bairro lá em [...] temos o shopping, os teatros, os cinemas, as baladas, os bares; ou seja: muita, muita, muita opção; sinto falta, é isso; aqui em Ouro Preto falta tudo isso; não dá; melhor ainda: não dá para imaginar uma cidade sem shopping, sem balada, sem vida… putamerda… por isso me adianto… no final de semana, quando posso, desapareço… é muita depressão… não suporto… eu não agüento… não imagino cidade sem shopping… isto não existe.”
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Conheci um homem que colecionava orquídeas; tinha várias, de toda espécie. Pouco e nada entendo de orquídeas; apenas aprecio-lhes a beleza, mesmo porque simplesmente são belas, quem há de negar? Julgar-se-á os homens, jamais as orquídeas, é o que penso de pronto sobre elas, as orquídeas, e sobre ele, o homem. Quanto ao homem que colecionava orquídeas, era obtuso, simplório, padrão; fluiria numa multidão de iguais, como água ou líquido qualquer que seja – Bauman, a maldição. Mas colecionava orquídeas, o que lhe conferia alguns pontos na escala da evolução. Se bem que, convenhamos, o verbo lhe traia; típico da fluidez destes tempos. Prefiro dizer sobre este ser obtuso: ajuntou orquídeas; e ajuntar, segundo me consta, infere uma breve e necessária noção de espaço; por isto o crédito ao colecionador. Voltando às orquídeas, eis a diferença: todas juntas num mesmo lugar, e esta é a beleza desta pequena história. Todo dia o tal homem aprecia sua obra de ajuntar, o que lhe faz mais humano e menos igual, porque poucos ajuntam coisas tão belas e tão raras como as orquídeas.
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Nada contra: num estado de direito é lícito aos estudantes reinvindicar seu direito a pitar a marijuana numa boa; hipocrisia há nesta matéria, é verdade, há tempos [D. Ruth, de saudosa memória, que o diga]; até porque a truculência policial passou dos limites, habituais como sempre, diga-se; o problema é que a ocorrência não se registrou num boteco na entrada da favela, por exemplo, freqüentado por gente-de-cor, por exemplo, num bum-bum-baticubum-brurungudum, por exemplo. Ali o couro come, filho chora e mãe não vê. O problema é outro: houve tempo, convenhamos, em que os estudantes ocupavam reitorias por questões mais, digamos, “relevantes”; melhores condições de ensino, por exemplo; cotas para inclusão social, por exemplo; investimentos para a pesquisa, por exemplo; alguns, já vi, calorentos, ficavam nus como nossos ancestrais tupi-guaranis. Chique, no mínimo. Exemplos, nada mais…
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Funciona mais ou menos assim: qualquer um pode beber sua cerveja sossegadamente dentro do coletivo, desde que seja cerveja em lata; pode ouvir suas músicas no MP3, celular, iPod, etc., etc., desde que use os fones de ouvido; ou seja, tudo de si para si; pode conversar animadamente com os amigos, desde que contenha o vernáculo e o uso de palavras chulas e agressivas; pode-se verbalizar à vontade ao celular, discretamente, o necessário… Isso em tese. No entanto, perceba-se: (i) ficamos todos a par dos detalhes sórdidos e inconfessáveis da relação erótico-afetiva da mulher ao telefone público; coisa de louco; (ii) a conversa pitoresca e escandalosa dos adolescentes pouco educados inclui baixos calões, menções a sexualidade alheia, performances alucinógenas, briga de gangues, coisas do gênero; (iii) dispensou-se os fones, o volume incomoda, a música é esdrúxula, estúpida, rasteira e pueril; o chamado “batidão”; uma lástima; (iv) a cerveja do idiota acabou, pelo que se percebe de suas eructações e flatos trogloditas; um caso de saúde pública, diria-se; (v) não tendo o que fazer com as mãos, o javardo lança peremptório a latinha de cerveja pela janela aberta do ônibus em movimento, atingindo, sem o perceber, transeuntes inocentes daquela cena urbano-grotesca, que reagem automáticos à agressão gratuita com menções à genitora do tal desinfeliz… E a nave vai… Penso: faz sentido… Como faz.
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