Noventa, Noventa e um, Noventa e dois…
Além de atrasado para a retreta, sem o trombone, bêbado que nem uma vaca, nosso Pinto optou pela mesa de bilhar, levando consigo o Peixe. Tudo bem, não quer não queira. Um detalhe, porém, reacendeu uma velha brasa: a camisa amarfanhada do Siderúrgica, do glorioso Siderúrgica. Amarfanhada é apelido, a citada encontrava-se em petição de miséria, na bacia das almas. Achei inclusive que estava sacudidona, contando os anos de desuso noves fora a ingratidão das gentes mineiras com a memória do nosso ludopédio. Coisa de botequim.
Nosso Pinto é dado a estes arroubos nostálgicos e vez em quando, na preguiça de suas memórias, relembra os tempos em que desfilava sua elegância nos gramados deste mundo. Foi center-half nas célebres formações dos grandes, chegando inclusive a enfrentar os craques do passado. Coisas do Pinto.
Domingo passado, no entanto, outra camisa do Siderúrgica atravessou meu olhar. Na Folha de São Paulo - quem diria – saiu uma reportagem da demanda judicial entre José Maria Carneiro com a poderosa Nike. Acontece que nosso glorioso José Maria foi celebrizado no seu tempo como Noventa, exatamente o nome escolhido pela marca para uma série de produtos. O fato despertou a atenção da mídia para uma página quase esquecida da história esportiva, a fase semi-profissional do futebol, a dita Era Romântica que teimosos e saudosistas – eu, inclusive - recusam esquecer. Coisa de maluco.
Coincidência ou não, ao que parece a demanda nos tribunais vai reeditar a velha história do ovo e da galinha. Para os mineiros - pelo menos para os teimosos e saudosistas -, o Noventa será lembrado por sua valentia na final do campeonato de 1964, quando foi obrigado pelo lendário técnico Yustrich a jogar com o braço quebrado (sendo dele, inclusive o gol da vitória). Coisas do futebol de então.
Detalhe: a origem do apelido que celebrizou o craque do viril esporte bretão. Segundo reza a lenda, nosso herói recebeu a alcunha na infância, de uma inocente brincadeira de embaixadinhas com bola de meia. Funcionava assim: o número máximo de embaixadinhas identificava cada garoto, como um troféu, um recorde, uma marca alcançada. Coisas de criança.
O Siderúrgica de Sabará, do campo do Ó, foi e sempre será o segundo time de qualquer mineiro. Meu avô – americano roxo – viveu bastante para contar para seus netos as histórias daquelas partidas de futebol – pugnas, no seu dizer -, verdadeiras odisséias, sensacionais duelos entre gigantes ferozes de igual obstinação e coragem. Coisas de velho com os olhos mareados de lembranças.
Como manda a tradição, todo mineiro tem no apelido seu segundo nome, uma espécie de re-batismo. Muitas vezes este novo nome desqualifica o recebido no cartório e identifica a pessoa, a família e a árvore genealógica, a ponto mesmo de ser esquecido a sua origem ou o motivo do novo nome. Coisas de mineiro.
O apelido do velho que contava as histórias do Siderúrgica de Sabará era “Oitenta e Quatro”. Não sei a origem, mas desconfio - tenho quase certeza - de onde surgiu este enigmático novo nome que meu avô não teve tempo de contar. Esta história que começou quando o Pinto esqueceu o trombone e resolveu jogar sinuca esclareceu muita coisa na minha cabeça. Minha cabeça está cheia de coisas, isso sim.
Update: para saber mais sobre o viril esporte bretão e sobre o valente Siderúrgica: http://blog.soccerlogos.com.br/2007/10/04/siderurgica-de-sabara-um-simpatico-campeao/