Tempos fascistas estes que vivemos; pode-se dizer o que bem quiser desde que prevaleça o senso-comum; ideias podem divergir da maioria, desde que tal divergência conflua para a convergência; pode-se protestar, reivindicar, denunciar, desde que estas tais excrescências contribuam para o silêncio sagrado, a paz social e o sono tranquilo da vizinhança; pode-se perfeitamente ser preso por falar a verdade, apontar o erro, indicar os equívocos, os preconceitos, as dessemelhanças; insistir na mentira pode ser vantajoso, mas permanecer calado significa ganho financeiro, propinas, cachês; o que chamam de impunidade é, na verdade, uma arca cheia de dinheiro, produto de enxágües nas máquinas de lavagem do capitalismo espúrio, das gangues de burocratas, fisiocratas e demagogos; neste festim diabólico encontrar-se-á toda a espécie de bandido, de aviõezinhos a senadores, de traficantes a empresários multimilionários; sinto muito cara-pálida: estamos falidos eticamente, moralmente, laconicamente; ou vão me dizer que prender meia dúzia de estudantes aloprados e enquadrá-los nos rigores da lei significa um exercício da democracia? Quem o disse e quem acredita em quem o disse merece diploma de louco, de estúpido, no mínimo. Isto, o ocorrido, é o saneamento básico: limpar, varrer, espanar, colocar a poeira debaixo do tapete; sinto muito cara-pálida: o buraco é mais embaixo, a ferida é enorme e a doença é maligna, mortal. Depois que a cortina de fumaça for dissipada pelo tempo, senhor da verdade, resultará inútil tanta violência, tanta intolerância de parte a parte, tanta força, tanta hipocrisia. Alguém sussurra longe: amor constrói; não enquanto existir gente odiosa odiando para merecer o nosso não-amor. Presta atenção, cara-pálida!