Orgulho ferido: a novela

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Falta pouco para fechar a tampa do caixão! Uma das fontes que financiou a corte azul-amarela entrou em parafuso… Outra enfrenta sérios problemas com o Imposto de Renda. Outra, ainda, dizem fontes fidedignas, está encrencada com a estrutura e os encanamentos do seu condomínio por conta de algumas obras subterrâneas superfaturadas. Será o fim da dinastia ornitológica em terras alterosas? Como os oráculos paulistas vão reagir? Será o retorno triunfante de John Serra, o vampiro brasileiro? Qual será a reação de Fernandinho Boca Mole, também conhecido no jet-set nacional como O Padrinho? Quem vai lamber os beiços com este espólio neoliberal? Quem se locupletará de Freedom Square, da Fazenda do Tucano e do Plano-Piloto Mineiro com sua arquitetura barroco-futurista? Será que o boneco Chuck vai conseguir realizar seus planos sinistros para destruir a Lagoinha e adjacências? E o BRT, sai ou não sai? Aguardem os próximos capítulos de Orgulho Ferido, a grande novela brasileira: dinheiro, vingança, sexo, paixão, sede de poder e intrigas familiares… Sempre às nove horas, no horário nobre, no Jornal Nacional! Ou não.

http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2013/10/08/interna_gerais,457279/crise-no-grupo-de-eike-batista-afeta-museu-na-praca-da-liberdade.shtml#.UlPhv6vjz20.facebook

O bom, o mau e o feio (qualquer semelhança com o cenário político é mera coincidência) ou (vamos brincar de cartomante, para desopilar)

2 Qualquer cinéfilo mediano conhece a sequência do duelo triplo [sic] no faroeste de Sergio Leone de 1966 [no Brasil, “Três homens em conflito”; no original italiano “Il buono, il brutto, il cativo”; na versão americana, “The good, the bad, and the uggly”].

Minha proposta de brincadeira é a seguinte: na conjuntura política atual, quem é Clint Eastwood, quem é Lee Van Cliff e que é Eli Wallach?

Vamos relembrar o duelo [sic] para clarear as ideias:

Começando pelo feio [Wallach]: ele tem dois alvos e uma escolha, mas (importante!) não sabe que a sua arma está sem munição; no início do jogo da morte tem, portanto, 33,3% de probabilidade de morrer no tiroteio. No final, foi salvo pela sua própria ignorância, pela sua ingenuidade e, principalmente, porque alguém tem de fazer o serviço sujo nesta história; no caso, cavar sepulturas. Sua recompensa foi a metade do dinheiro; ou seja, foi um tolo humilhado, um duelista sem glória e um homem revoltado com a sorte que teve no jogo.

O bom [Eastwood]: é o esperto da trama; primeiro, retirou a munição da arma do feio; portanto, sabia que seu duelo verdadeiro era com o mau e que tinha exatamente 33,3% de probabilidade de morrer da disputa. Com isso, concentrou todas as suas forças psicológicas para matar o único adversário que tinha bala na agulha; foi o que fez: descarregou sua arma e matou o adversário mais violento, mais perverso e, também, menos burro, menos ignorante, menos ingênuo; detalhe cenográfico: o mau caiu direto numa sepultura rasa (a alegoria é bem forte). Para finalizar sua façanha, humilhou o feio com a metade do espólio do duelo; ou seja, ipso facto, ad literis: “você fica com o dinheiro; eu fico com o dinheiro e com o poder” (outra alegoria forte).

O mau (Van Cliff): este pensava que era esperto; no entanto, na hora da decisão mal percebeu que tinha 66,6% de probabilidade de morrer; isto porque tinha para si o ódio dos dois adversários; portanto, não sabia em quem atirar primeiro. Morreu tão rápido que nem viu de onde saiu a bala que o matou. Simples assim: (1) se escolheu o feio virou presa fácil; (2) se escolheu o bom pensando na ameaça do feio, perdeu a concentração, o foco e seus objetivos; logo, perdeu a vida por isso; primeiro a empáfia; segundo o orgulho; terceiro a inteligência; e (3) se escolheu os dois, mereceu morrer, pelos mesmos motivos de antes. Assim aconteceu: morreu em cova rasa, sem glória e sem dinheiro (outra alegoria bastante forte).

E isto, caros plantonistas: façam suas apostas! Escolham seus personagens, ou escolham outro final para esta história, se quiserem!

(observação: nem contei com o acaso; e o acaso, neste caso (sic), é o pássaro bicudo azul e amarelo; nesta trama, ele mal aparece; talvez, o soldado desconhecido enterrado na sepultura rasa onde estava afinal o dinheiro cobiçado pelos duelistas).

Foto de Luiz Carlos Teixeira.

O mundo mudou e eu não reparei…

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(1) Nem o PT nem o PSDB nem qualquer outra agremiação política hodierna consegue produzir pautas; esta é a tese que defendo aqui; (2) coloco estes dois partidos na frente, sobretudo em Minas Gerais e São Paulo – os dois maiores colégios eleitorais deste país – dada a polaridade alimentada pelos veículos de comunicação, sobretudo os grandes conglomerados da informação capitaneadas pela Fundação Roberto Marinho; (3) a proliferação de partidos recente é um dos resultados perversos desta ausência de pautas; por exemplo, o natimorto Rede de Sustentabilidade; a pensar bem, mesmo se houver aprovação do TSE, Marina não tem pauta; nunca teve; e nunca vai ter; ainda mais se as alianças previstas do quase partido se concretizarem (observem quem se faz acompanhar da ex-senadora ultimamente; o PT morreu assim); (4) outro exemplo: o partido recém-nascido dos militares, uma sigla que dá o que pensar: também não apresentou pauta. Pode ser que mude seu discurso, nas campanhas eleitorais, mas seu portfólio é fascista, integralista e totalitarista até a raiz do cabelo; lembra 1984 de Orwell: pena de morte, prisão perpétua, redução da idade penal, recrudescimento dos direitos civis, vigilância total, irrestrita. Este discurso vai fazer sucesso, num país marcado pela violência e pela impunidade. É provável que faça em breve tempo vereadores, deputados, prefeitos, não duvidem disso; tem até um hino (aqui>>>> http://www.partidomilitar.com.br/?page_id=170), uma pérola digna da memória esquecida de Plínio Salgado; (5) não diferente dos partidos surgidos dos púlpitos e dos sermões moralistas: o que é isto, companheiro? Um estado “laico” minado de missionários anunciado o Apocalipse de João, a Besta do Juízo Final, o final dos tempos. O que os legalistas mais liberais não percebem é que política e religião são indissolúveis. A política é uma religião. Nosso Estado nunca deixou de ser teocrático, essa é a verdade. Por esta razão, não reconhecer a origem, a genealogia, a raiz desta árvore que viceja imensa é fatal. Os reacionários que assumem pastas estratégicas para a luta por direitos sociais é resultado desta falta de percepção política. Falta de pautas. Falta de agenda. Falta de programas. Com isso, transformamos o nosso Leviatã doméstico neste monstro misógino, homofóbico, xenófobo, etnofóbico, e muito mais. Resultado disso, estampado na primeira página dos jornais: odeia-se tudo neste país: negros, mulheres, índios, gordos, pobres, nordestinos, trabalhadores, velhos, deficientes, mendigos, favelados, africanismos, drag-quens, e por aí vai. Um deus-nos-acuda: cada um por si, companheiro; procure outro buraco que este aqui é meu! Mas voltemos à tese: (6) nunca sairemos deste lugar-comum sem pautas, sem programas, sem agendas; (7) acontece que os dois maiores partidos deste país – pelo menos no papel – não têm agenda, não tem um projeto de futuro, não discutem seus programas com a população; (8) resultado: as pautas apresentadas nos últimos anos são incompatíveis com as necessidades da população; esta é a verdade que as ruas mostraram, recentemente; (9) a pauta do povo é bastante simples de entender: direitos civis, direitos sociais, direitos políticos; o outro nome disso é cidadania; o outro nome disso é democracia; ou seja, temos leis, mas elas não funcionam; temos uma Constituição, mas ela não funciona; por que é assim tão difícil? A resposta nos é apresentada pelos dois maiores partidos na disputa pelo poder; se não vejamos: (10) a pauta apresentada pelo PT não é diferente da pauta do PSDB: ambas beneficiam os empresários, o capital, a lei do mercado; nada mais antidemocrático; nada mais antissocial; nada mais perverso; nada mais anticonstitucional; ou seja, estamos longe, muito longe de um Estado de bem estar social, seguindo a pauta do PT; (11) o que diferencia o PT e o coloca em leve dianteira são os programas sociais assistencialistas; o problema do PT é a encruzilhada, a hora da verdade, o momento decisivo (ou seja, o futuro): escolher entre o mercado de capitais (as fortunas) e um Estado social-democrata de direito (o povo). Não é à toa que um mantra é recorrente nas ruas do país de ponta a ponta, como um ditirambo, como um tique-taque: socialismo democrático ou barbárie. O trabalhismo está minado. Exauriu. O sindicalismo é fraco porque foi abduzido pela comensalidade entre o partido trabalhista e o oportunismo empresarial, corporativista, entreguista, neoliberal. Democracia ou barbárie: este é o clamor das ruas. Vandalismos, depredações, quebradeiras: para quem entende, um pingo é letra. Pelo que foi visto na televisão, no mundo da vida, a segunda alternativa está vencendo. O futuro não é bom. Só há presságios e maus augúrios; neste sentido, o PT tem a sua parcela de responsabilidade nos episódios recentes; começando quando assinou sua carta de suicídio ao abandonar a luta sindical nos corredores das instituições financeiras e nas federações industriais paulistas. O problema é que apostamos muitas fichas no trabalhismo, que de trabalhismo não tem nada, pois mal consegue disfarçar sua cauda pontuda. (12) Do outro lado, o PSDB é aquilo de sempre; seu discurso reflete uma mentalidade arqueozoica: crescer para dividir. Coisas remanescentes da época mais negra do capitalismo capenga do Delfim Netto e do Mario Henrique Simonsen. Coisas de terceiro-mundo do qual locupleta-se o hemisfério norte. Acontece que este é o modelo; ou seja, entra governo, sai governo, mudam os mosquitos. Isto explica as excrescências publicadas na revista Fortune, a corrupção, os abismos sociais, a pobreza e a fome consuetudinária. Este é o modelo neoliberal. Neste aspecto, o PT só engoliu corda. São – PT e PSDB – gêmeos univitelinos; são irmãos siameses; são unha e carne, olho e remela. Neste sentido, ao tirar o cetro dos tucanos, repito, mudaram os mosquitos. De forma que, ainda hoje, os proclamas da politica nacional são editadas nos arredores da Av. Paulista, nos espigões envidraçados de grandes instituições financeiras. O PSDB é uma cartilha, uma receita, um manual de procedimentos, um cânone. O PT caminha para. Por esta razão, não existe outro PSDB senão o paulista. O beija-mão presta-missa do pré-candidato alterosa prova disso: passa, depois do aval de Serra; ainda assim contando com os cavalos de troia de sempre; e no muito, para um segundo turno; com os escândalos financeiros dos governos tucanos mais recentes … (o “mensalão” é fichinha, troco em centavos); (13) posso queimar a língua: o tucano é um cavalo paraguaio; os azarões de centro, de esquerda ou de direita são presentes de grego; quem está rindo à toa é o corintiano barbudo, talvez o maior politico que este país produziu nos últimos trinta, quarenta anos (para o bem e para o mal, entenda-se); (14) por isto, o cenário não é dos melhores; pergunto ensimesmado: será que vai aparecer um novo caçador de marajás? Na atual conjuntura, não duvido de mais nada. Não das Alagoas; talvez, um ou dois graus latitude acima; (15) Por fim, amigos, pauta que é bom, necas; nem PT nem PSDB, nem qualquer outra agremiação política no Brasil, jamais, nunca, em tempo algum. Nem programa, nem agenda, nem futuro, nada. Nada. Placar da rodada: Fisiologismo, dez; democracia, zero.

O insólito assassinato de Fritz, the cat…

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Domingo, frio lá fora, pinga dentro. Um pouco de cultura pop, para esquentar: Crumb foi o primeiro, salvo engano, a matar a sua criatura; seria, talvez, a síndrome de Mary Shelley, o mito de Prometeu? Vá saber e pouco importa – e também não é o caso em questão. Na sequência, um momento fatídico: está na Comiclopedia, letra “c” de “Crumb”: Fritz desfere um tremendo pontapé na buzamfa de sua amante avestruz; típico do personagem; era um drogado, maconheiro, um macho chauvinista, um típico freak norte-americano (mas, quem não era naqueles tempos?…); muitos de seus embaraços eram resolvidos na porrada, na violência, na base do cacete; até aí, beleza. O inusitado é o desfecho da história: a “menina” possessa persegue e mata Fritz no corredor de hotel barato com um picador de gelo. Morte idiota para os padrões da época (lembrai-vos: Guerra Fria, Vietnã, direitos civis…), uma morte nunca antes escrita nos anais da cultura pop norte-americana; chocante! Na verdade, Crumb estava cheio de Fritz; Fritz era um alcoólatra canalha, um paranoico insuportável, um doidão esculhambado, um escrachado maluco; mas, ao mesmo tempo era charmoso, inteligente, debochado, espirituoso, elegante e sedutor. Resumindo, Fritz era o cara. Ou seja, Fritz ganhou vida própria; e assinou, com isso, a sua sentença de morte. Certo é que morreu o personagem, nasceu o mito Fritz, The Cat. Mas, confesso, nunca vi um The End tão non sense. Por isso, até hoje, copiam o Crumb. Porém, como diria Edward Robinson, “enquanto eu estiver na cidade, você é o número dois”. Capiste?

O Leviatã e o cheiro do ralo

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Falam em Estado de Direito, mas vejam: (1) justiça não há; quando há, não funciona; (2) os legisladores, muito menos; estes são comensais do lixo que ajuntaram durante décadas de séculos; pretéritos, isto é o que são; pretéritos; (3) enquanto isto, os executores claudicam, titubeantes, circonavegantes; não sabem, não viram, não ouviram. São fantasmas. Cegos no castelo; e (4) os vermes, estes proliferam na carne putrefata, comensais do lixo ajuntado pelos seus representantes legisladores; pobres diabos, manufaturam o lixo, reviram, desviram, separam e rejuntam, amontoam, num trabalho digno de Sísifo. São os demônios que habitam lugares escuros, onde o ar é rarefeito, onde o cheiro do ralo é mais forte. Pois, então; que Estado é esse, perguntar-se-ia? Hobbes diria, estarrecido, resposta pronta: um Leviatã colossal, com a barriga imensa, uma cabeça minúscula, os membros atrofiados, os olhos esbugalhados, as mãos pedintes, o sexo tomado de pústulas e de gonorreias, os terminais e o esfíncter obstruído, os cabelos ralos e poucos, os dentes podres e poucos, o hálito tomado do cheiro da história, mofado, terrível, trágico. O cheiro que sobe é insuportável. Nunca como antes o anjo exterminador viu tanta ruína, escombros, lixo e miséria humana. O inferno, diria Hobbes, resignado, é aqui. Então, Estado de Direito… Onde mesmo?